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Instituto DS de Pesquisas
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O Brasil é do ,99

Como um centavo define metade das ofertas do varejo promocional brasileiro

19 de abril de 2026 · Marcelo Souza de Araújo

Em março de 2026, 51,3% de todos os preços anunciados em encartes promocionais no Brasil terminaram em ,99. Um a cada dois preços. O padrão se repete há dois anos e meio e concentra-se em nove preços específicos que, juntos, respondem por um quarto de todas as ofertas do varejo nacional.

Em março de 2026, 51,3% de todos os preços anunciados em encartes promocionais no Brasil terminaram em ,99. Um a cada dois preços. O padrão se repete há dois anos e meio — e concentra-se em nove preços específicos que, juntos, respondem por um quarto de todas as ofertas do varejo nacional.

Este é o primeiro estudo pontual do Instituto DS de Pesquisas. Ele descreve, sem atribuir causas, o uso de preços-âncora no varejo promocional brasileiro. A análise se baseia em mais de 8 milhões de registros de preços promocionais coletados entre janeiro de 2024 e março de 2026, em mais de 2.000 empresas ativas em 26 estados.

O fato central

Terminação% do totalOnde encontrar
,9951,31%Metade das ofertas
,498,78%Segunda maior frequência
,906,70%Varejo atacadista
,984,72%Variação "um centavo a menos"
,003,77%Preço redondo — raro
,893,03%
,792,73%
,29 / ,69 / ,50 / ,59 / ,39~8%Cauda longa

O preço redondo (terminando em ,00) é 14 vezes menos comum que o terminado em ,99. Apenas uma em cada 27 ofertas usa valor fechado. O padrão brasileiro de precificação promocional é regido por um único centavo.

Os 9 preços que dominam um quarto do mercado

Nove preços específicos — todos terminando em ,99 — respondem por 24,51% de todas as ofertas promocionais no Brasil em março de 2026:

PreçoParticipaçãoExemplos típicos
R$ 3,993,55%Hortifruti, detergente, margarina
R$ 4,993,34%Laticínios, biscoitos
R$ 2,993,13%Macarrão, farinha, pão
R$ 5,993,05%Feijão, ovos (caixa), creme dental
R$ 6,992,87%Carnes de aves, óleo
R$ 7,992,60%Coxa e sobrecoxa, maçã
R$ 9,992,58%Sabão em pó, refrigerante
R$ 8,992,32%Hortifruti premium
R$ 1,992,07%Sabonete, detergente pequeno
Total top 924,51%

O primeiro preço da lista que não termina em ,99 aparece apenas na 16ª posição do ranking geral (R$ 3,49, com 1,27%). A concentração é estrutural.

Um padrão estável, não uma moda

A adesão ao ,99 mudou pouco ao longo de dois anos:

AnoPreços em ,99Total de observações
202453,19%3,37 milhões
202552,92%4,16 milhões
2026 (até mar)51,33%1,27 milhão

A variação total é de apenas 1,86 ponto percentual em dois anos. O ,99 não é moda — é institução do varejo brasileiro.

Onde o ,99 manda mais, onde resiste

Categorias com volume suficiente para análise (≥ 5 mil observações em março/2026):

Categoria% em ,99Leitura
Carnes62,7%Líder absoluto
Frios e Embutidos58,0%Segue carnes
Padaria54,8%
Higiene e Beleza53,6%
Hortifruti53,5%
Limpeza51,0%
Laticínios47,7%
Bebidas (não-alcoólicas)46,7%
Mercearia46,7%
Bebidas Alcoólicas38,1%Resistente

Diferença entre extremos: 24,6 pontos percentuais. A categoria Carnes usa ,99 quase 1,7 vez mais que Bebidas Alcoólicas. Nas bebidas alcoólicas, preços terminados em ,00 e ,90 aparecem com mais frequência — refletindo o uso de preços redondos em fardos e kits (R$ 30,00, R$ 50,00 o pack).

O mapa regional do ,99

Diferença na adesão ao padrão entre estados com volume suficiente (≥ 5 mil observações em março/2026):

Estado% em ,99
PR62,7%
ES59,1%
RJ54,5%
RS53,5%
MG53,3%
SC53,1%
MT51,9%
MA51,8%
SP50,6%
BA49,5%
MS49,1%
AM47,4%
GO45,6%
PA45,4%
CE44,3%

Diferença entre extremos: 18,4 pontos. Paraná é 1,4 vez mais aderente ao ,99 que o Ceará. O gradiente observado tem leve viés Sul-Sudeste (mais) → Norte-Nordeste (menos), mas nenhum estado fica abaixo de 44% ou acima de 63% — o padrão é dominante em todo o país.

O que o padrão revela sobre o varejo brasileiro

Quatro observações que emergem dos dados, sem inferir motivações:

1. O grid de preços promocionais é pequeno. Apenas 9 preços específicos respondem por um quarto de todas as ofertas. O conjunto de preços "possíveis" numa promoção brasileira é muito mais restrito do que a teoria econômica sugeriria.

2. O ,99 é um contrato tácito. Grandes redes nacionais, regionais e mercadinhos de bairro convergem para a mesma terminação. Quem usa valor fechado (R$ 10,00) está sinalizando algo — pode ser atacado, combo ou posicionamento premium.

3. Preço redondo é exceção, não norma. Com ,00 em 3,77% e ,99 em 51,31%, ver R$ 10,00 num encarte é 14 vezes menos provável que ver R$ 9,99. O brasileiro lê tão poucos preços redondos que eles mesmos ganham significado próprio.

4. Estabilidade é sinal de institucionalização. Dois anos sem variação relevante indicam que o ,99 não é tendência de mercado, mas convenção consolidada. Mudá-lo, se alguém tentar, exige coordenação setorial.

5. A diferença entre categorias é maior que entre estados. A adesão varia 24,6 pontos entre categorias (Carnes vs Bebidas Alcoólicas) e 18,4 pontos entre estados (PR vs CE). O padrão de precificação muda mais conforme o que se vende do que conforme onde se vende — um dado interessante para análises setoriais futuras.

Limitações e contexto

Este estudo descreve os preços promocionais — aqueles que aparecem em encartes, folhetos e materiais de divulgação. Não inclui preços de gôndola, preços praticados em e-commerce ou preços de grandes redes que divulgam pouco em materiais impressos digitalizados. A amostra foi captada a partir dos encartes e registros do varejo recebidos pelo IDSP, cuja composição pode variar conforme a atividade do varejo em cada mês e região.

A análise não atribui causas ao padrão observado. A literatura internacional documenta o efeito de dígito esquerdo (Thomas & Morwitz, 2005) — a tendência de consumidores ancorarem percepção de preço no primeiro dígito à esquerda, tratando R$ 9,99 como "nove e pouco" em vez de "quase dez". A confirmação de que esse efeito explica o padrão brasileiro específico ficaria fora do escopo deste estudo.

Metodologia

Base de dados. 8,79 milhões de registros de preços promocionais coletados entre 2024-01-01 e 2026-03-31, provenientes de captura automática de encartes e materiais promocionais publicados por mais de 2.000 empresas ativas do varejo brasileiro em 26 estados. O IDSP opera esta captação em regime contínuo desde janeiro de 2024.

Filtros aplicados. Considerados apenas preços maiores que zero publicados em encartes no período. Excluídas observações com preços inválidos ou registros de teste.

Análise de terminação. Para cada preço, extraiu-se a parte decimal (centavos) e calculou-se sua distribuição relativa. O recorte por categoria e estado considerou apenas grupos com pelo menos 5.000 observações no mês de referência, para garantir estabilidade dos percentuais.

Série temporal. Os percentuais anuais de 2024, 2025 e 2026 foram calculados sobre todo o volume de cada ano, sem amostragem. 2026 inclui janeiro a março.

Reprodutibilidade. A metodologia completa está em /sobre/metodologia. Questões sobre este estudo podem ser direcionadas à Diretoria de Pesquisa do IDSP.


Sobre este estudo

Autoria: Luan Gil Azevedo (Presidente), Marcelo Souza de Araújo (Diretor de Pesquisa), Felipe Serrano Vieira (Diretor Executivo). Coordenação metodológica: Diretoria de Pesquisa. Versão metodológica: v1.

Sobre o Instituto DS de Pesquisas

O IDSP é uma iniciativa de inteligência de dados focada no varejo promocional brasileiro. Publica mensalmente o IDS-PP (Índice DS de Preços Promocionais) e o IDS-PM (Índice DS de Presença de Marcas), além de estudos pontuais como este, em institutodspesquisas.com.

Cobertura. O IDSP opera captação automática de encartes promocionais e registros do varejo em mais de 2.000 empresas ativas em todo o país, com série histórica desde janeiro de 2024.

Governança e independência editorial. Os três dirigentes do IDSP exercem também funções executivas na ds.marketing, empresa que criou e mantém institucionalmente o instituto. Decisões editoriais — definição de metodologia, filtros estatísticos, escolha de estudos e tratamento de dados — são tomadas pela Diretoria de Pesquisa do IDSP sem interferência externa. Nenhum cliente da ds.marketing tem tratamento preferencial na cobertura, recortes ou destaque de nenhuma publicação.

Financiamento. Não recebe recursos de governos, partidos, associações setoriais ou empresas privadas (exceto o suporte institucional da ds.marketing declarado acima).

Correções. Erros identificados são corrigidos com nota de errata visível na publicação original.